segunda-feira, 29 de fevereiro de 2016

São Paulo



"Vá sem expectativas" me disse meu professor quando falei com ele sobre minha sede de fugir de Porto Alegre para São Paulo. Um desejo que pulsava dentro de mim desde pequeno e que, por algum tempo, ficou meio quieto. Ao começar a fazer jornalismo, ele gritou. E está se tronou basicamente minha única meta de vida (tive outras tantas no caminho que abandonei com a mesma velocidade que as adquiri). Então, com um diploma na mão, fiz minhas malas e vim para São Paulo.

Foi uma semana de preparação. Primeiro, o que desencadeou tudo, um pente fino nos grupos de dividir apartamento do Facebook. Em poucos scrolls achei uma vaga muita boa. Logo, outra e mais outra. Aí veio a parte mais difícil: falar com a minha mãe sobre mudar de estado. Ela passou por todas as fases do luto com essa ideia (negação, raiva, negociação, depressão e aceitação - na verdade, está entre a quatro e a última...). Lágrimas e muitas conversas depois, foi comprada a passagem só de ida. 

A busca pela moradia perfeita seguiu. Com o apoio que ela passou a me dar, mais e mais vagas bem localizadas com um preço bom foram aparecendo. Até mesmo uma senhorinha que aluga quartos de seu apartamento a preços módicos e promete tomar conta de nós. Desta forma pisei na terra da garoa com oito endereços para conhecer e duas noites reservadas num hostel.

A dica de ficar no hostel veio do meu irmão. Ele, sabiamente, me disse "não inventa de fazer depósito daqui para alguém lá, porque não terá garantia alguma. Vai e fica num lugar barato, marca de visitar os apartamentos e aí sim aluga". E foi o que fiz. Neste momento escrevo da minha cama no Bee.W, um simpático, barato e limpo, perto da amada Avenida Paulista, região onde vi as vagas.

Minha vinda foi levemente conturbada. O voo era às 14:30. Mas alguém da Gol resolveu adiantar as coisas, de modo que não consegui despachar minha mala nem dar o último beijo na minha mãe, irmão e Harvey Dent (eles me deixaram na porta do aeroporto e foram estacionar). Fui correndo, me sentindo humilhado por ser chamado no sistema de som do Salgado Filho para o embarque. Cheguei na cidade grande 20 minutos antes do previsto graças a essa palhaçada da empresa.

Descendo em Congonhas, abri o Uber para chamar meu transporte. Surpresa! Eles não atendem aquele aeroporto. Tudo bem, é pela segurança dos motoristas, mas fiquei chateado ainda assim. Acabei num táxi vermelho e branco com um motorista praticamente mudo.

Enquanto ele dirigia pela avenida que não tenho ideia do nome até a rua Haddock Lobo naquele trânsito intenso, porém fluído da capital, um sentimento de completude encheu meu peito. Estava em casa. São Paulo tem tudo para ser meu lar.

Táxi pago (R$ 45 😞) e check-in feito, foi hora de por o pé na rua. Um latte no Starbucks para matar a fome e jornada pelas operadoras de telefone para comprar um número ddd 11. Por muito acaso entrei numa loja da Tim, que tinha uma super promoção só pelo dia de hoje. Não preciso nem dizer que não resisti e peguei o chip deles. O antigo 51? Foi para um clássico Motorola V3 Black - que só funciona na função alto falante...) e se tronou pré-pago - foram 35 minutos na linha com a Claro para que fosse feito o procedimento. Se me perguntarem, a sensação era de que a moça queria que eu desistisse da mudança, afinal pagava R$ 228,50/mês.

Todas essas funções feitas, volto para meu quarto compartilhado e confirmo as visitas aos apartamentos. Um já foi locado, mas se eu quiser me hospedar lá, posso (???). Os outros estou ajeitando. E finalmente chegou um esperado momento: pintar o segundo olho do meu Daruma. Entre uma visita e outro, devo passar num templo budista para doa-lo.

Como disse a uma amiga minha que me deu indicações de trabalho (assim que tiver um quarto, começo essa busca), estou com um inenarrável sentimento de que tudo vai dar certo nesta cidade para mim. Não sei se é ingenuidade ou intuição, entretanto simplesmente sei que tudo vai ser ótimo. Seria isso uma expectativa? Talvez. Porém, não é de nada palpável, como querer um trabalho nas Edições Globo Condé Nast - para onde envio currículo todos os dias, literalmente. Estou aqui e tudo vai se ajeitar, sei disto. O Segredo me ensinou isto.


sábado, 27 de fevereiro de 2016

Morning Sex


A ciência já provou que durante determinadas fases do sono os homens todos têm ereções. É algo normal e acontece mesmo que o indivíduo não esteja vivendo uma intensa atividade sexual em seus sonhos. Se bem me lembro da informação, são umas três vezes por noite que os pintos endurecem. Apenas o corpo humanos se cuidando e fazendo com que haja uma hola de paus rodando o mundo incessantemente (lembremos que sempre tem algum lugar em que é de noite).

Muitas vezes ao acordar a rigidez segue. Alguns ignoram, outros acham que é o corpo pedindo um orgasmo. Se a cama é dividida, a maioria dos homens cutuca o outro com seu membro ou mostra mesmo, esperando que o sexo ocorra. Já ouvi de várias pessoas que esse morning sex é o melhor que há.

Meu bom amigo Auro levou o gostar do prazer matutino a uma nova categoria, a meu ver. Fã do sexo sem compromisso e da caça via aplicativo encontrou um rapaz cujo nome não tenho a menor ideia de qual seja. Eles conversaram pelo chat e trocaram telefones para levar o bate papo para o WhatsApp. Depois de muita (muita mesmo) dirty conversation e nudes enviadas, eles queriam fazer aquilo que tanto falavam um ao outro. O problema logo surgiu: nenhum dos dois tem um horário de trabalho e estudos normal. Foram longos minutos percorrendo as agendas de ambos até que encontraram o dia e horário ideais. Domingo. Às 10 da manhã.

Particularmente, achava que as manhãs de domingo eram apenas uma lenda urbana, pois nunca as vi em minha vida. Mas parece que realmente existem. Então, enquanto milhares de crianças corriam para suas salas ver Hora de Aventura, Auro abria a porta para o Sr. Matutino para treparem até a hora do almoço, quando diriam adeus um ao outro.

A coisa foi tão boa para ambos que, naquela mesma tarde quente de domingo, gastaram os dedos nas telas de seus smartphones relembrando os melhores momentos e contando o que mais tinham vontade de fazer. A foda do próximo domingo fora marcada. Na realidade, Auro reservou todas os inícios do primeiro dia da semana para seu novo amante. Se você está lendo isto num domingo pela manhã saiba que eles estarão fazendo sexo neste exato instante.

Eu não costumo acordar muito bem humorado, independentemente de levantar por vontade ou por ter sido despertado. Sério mesmo, NUNCA falem comigo pelas manhãs. Se for imprescindível, por favor não queiram que responda algo mais do que um "hum". Não é nem uma questão de não funcionar antes do meio dia, é simplesmente de não gostar da vida antes do almoço.

Dito isto, fica bem intuitivo saber como foram as minhas experiências com sexo logo cedo. Sim, já "me fizeram" fazer isto logo nas (minhas) primeiras horas do dia. Não estava feliz ou receptivo. Meu corpo respondeu? Sim, como o de qualquer jovem de vinte e poucos. Foi algo torto e errado. Feito sem vontade alguma, apenas para terminar logo e satisfazer o outro, sem falar em se livrar de uma cara emburrada. Porque sim, haveria uma cara emburrada. Nem todo mundo entende a sutileza de um empurrão e pensam que, como há um relacionamento, pode-se insistir. O que faz com que eu acabe gerando uma briga por, no auge do meu mau humor matutino, ordenar que me soltem e xingar.

Quer me ver feliz? Me deixa dormir até a hora que for necessária, acordar em silêncio e comer alguma coisa. Não precisa encostar ou falar ou chegar perto. Se para Auro acordar cedo para tomar banho e se arrumar para ter um sexo na sua manhã livre é o paraíso, para mim ter contato sexual antes do almoço é uma verdadeira fonte de irritação. Um orgasmo fraco que traz benefício nenhum para minha vida.

Dito tudo isso, só posso concluir que morning sex tem que ser uma daquelas coisas que se fala logo no início do relacionamento, quando se fala do que se gosta e etc. Por exemplo:

"Na cama eu gosto de sexo oral, de quatro e no banho"
"Tenho tesão em 69, sexo de meias e bdsm"
"Curto zoofilia, morning sex, S&M e sexo sem proteção"

Façam seu/sua parceiro/a feliz e pergunte antes de passar o pinto nele/a logo no início do dia.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

A "véia"


Era uma vez um jovem de vinte e tantos anos recém-formado. Elias curtia a vida como se espera que alguém da sua idade o faça: ia para festas, bebia com os amigos e arrumavas uns casos amorosos aqui e ali, nada muito sério. Ele tinha certeza que tinha controle sobre toda sua existência - ou o máximo de controle que alguém na casa dos 20 pode ter. Até o dia que Tati entrou na sua vida.

Tati era uma mulher bem sucedida e estabilizada. Ela tinha tudo que podia e que queria no auge dos seus trinta e poucos. Só o que faltava para que se sentisse plena era um homem. E achou que tivesse achado o perfeito quando se encontrou com cheio de vitalidade Elias no início da última primavera.

Eles era um casal se não perfeito, perto disto. Os gostos se encaixavam e o sexo era incrível. Não havia ainda o rótulo de namoro, mas a monogamia era um acerto silencioso entre eles. Ainda que nunca tivessem levado um ao outro para conhecer seus amigos, as amizades poderia dizer que já os conheciam de tanto que ouviam falar.

Quando Elias começou a falar hoje sobre Tati foi, no mínimo, surpreendente. Ele começou com "esse é mesmo cheiro da minha véia", em referência ao aromatizador do carro do meu irmão. O aroma de baunilha me fez ter certeza que Tati deve usar o Angel de Thierry Mugler. Independente disto, o comentário foi inusitado. Nos minutos seguintes tudo que foi dito fez com que houvesse a certeza de que o casal perfeito não era nem de perto isto. Elias confessou não saber a idade dela, "mas tem mais de trinta, com certeza". Certamente eles não têm mais de dez anos de diferença, de modo que não entendi bem porque ela se classificaria como "véia". E conforme ele falava, foi possível entender o que gerou a mudança.

Elias e Tati, no auge da bebedeira de carnaval, entre uma rodada do estonteante sexo e outra, entraram em um terreno delicado de conversa: o futuro. Com toda sua vida já bem estabilizada, Tati começou a dizer que pretende se casar e ter filhos. O álcool fez com que saísse de sua boca a palavra que Elias não esperava ouvir: logo.

"Pretendo me casar logo".
"Gostaria de ter filhos logo".

A realidade é que ela já está com trinta e poucos. O relógio biológico está começando a apitar em seus ouvidos. dizendo que em breve seu útero vai secar. Ele, sem palavras, se dedicou a fazer um sexo oral nela. A verdade é que queria correr para longe daquela cama, mas já era tarde e estava sem carro. Enquanto a moça aproveitava seu prazer e queria acreditar que aquilo era quase um pedido de noivado.

Já falei aqui que tenho nada contra relacionamentos com pessoas de idades diferentes. Entretanto, as partes interessadas deveria pensar bem no que estão a fazer. Mulheres, infelizmente, têm um prazo para uma gravidez normal sem riscos. E não é todo gurizão cheio de disposição para sexo que entende isso. Para eles, é uma coroa que sabe como transar. Quase nenhum deles têm maturidade suficiente para formar família. Além desta questão, existem outros fatores a serem levados em conta quando há diferença de idade, como, por exemplo, o "perder" sua juventude ao lado de alguém que começa a ter doenças devido ao passar dos anos, os cabelos brancos nas parte íntimas, os programas mais parados, etc.

Nesta ocasião, me calei. Não deveria, mas foi o que fiz. Minha cabeça só conseguia pensar que Tati perdeu bons meses na sua corrida uterina contra o tempo com Elias. Se o foco dela num relacionamento é casamento e filhos, deveria ter procurado outro alguém ou ter dito tudo isso desde o início. Pior ainda é saber que ela vai ficar mais tempo com ele, porque Elias não vai terminar, ela acha que tudo está indo bem e, quando perceber, vai achar que pode fazê-lo mudar de ideia. Mas, querida, se ele diz "esse é o mesmo cheiro da minha véia", pula fora e acha alguém melhor para ti. Deixa Elias para as meninas de vinte e tantos que não querem saber de nada muito sério e ache um homem que te apresente a todos, que queria construir algo de verdade contigo e não diga que teu perfume é como aromatizador de carro.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Sufoco


São quatro anos de namoro. Nunca estive em um relacionamento tão duradouro. E, em geral, não tem muito do que se reclamar. Mas quando há algo, é grande e não se resolve fácil ou sem estresse. De fato eu me sinto quase sempre sufocado.

Antes, muito antes, anos atrás, lá no início de tudo, eu reclamava comigo mesmo e para alguns amigos da falta de engajamento. Os passeios de mãos dadas que nunca aconteciam ou qualquer coisa que remetesse a casal fora do motel. O tempo passou, algumas queixas foram ouvidas e as coisas mudaram - não para melhor.

Não importa para onde eu me vire, lá está. "... curtiu sua postagem", "... comentou sua postagem", "... compartilhou sua postagem", "... te marcou em uma postagem", "... curtiu seu tweet", "... te enviou um snap", etc etc etc. O dia inteiro coisas assim, sem parar. O espaço para individualidade, para minha individualidade, foi completamente ocupado vagarosamente ao longo dos anos sem que eu percebesse ou mesmo permitisse. Nem mesmo este espaço onde eu escrevo sinto a completa liberdade que gostaria de ter.

Recentemente, com a atualização do iOS, os aparelhos da Apple ganharam um app chamado Amigos. Me parecia um brincadeira simples e prática parearmos os iPhones nesta função. Algo simples e tranquilo, para informar quando chegou ao trabalho ou quando se está saindo de casa para nos encontrarmos. Infelizmente, apenas eu pensei assim.

Minha ideia de divertimento logo se tronou quase uma ferramenta de tortura. Me peguei sendo constantemente vigiado. O fato do meu telefone ter um pequeno problema em precisar minha localização acabou por me dar mais um punhado de fios de cabelo branco. Acabei por me tornar um refém, sendo obrigado a constantemente me justificar e dar satisfações de onde estava - ainda que estivesse confortavelmente instalado na minha cama na companhia de Kvothe (antes que venha mais uma leva de questionamentos, é o protagonista da série de livros As Crônicas do Matador de Rei - que recomendo muito).

Acharia algo parcialmente justo se eu tivesse alguma vez feito algo para que houvesse dúvidas a respeito do meu comprometimento com a relação. Acontece que não fui eu quem traiu neste namoro. Três vezes, no mínimo, pessoalmente e incontáveis pela internet, conforme já relatei aqui anteriormente. E ainda assim, eu não usei o Amigos para ficar paranoicamente acompanhando os passos alheios.

Ontem, ao sair com algumas amigas, me vi ficando sem bateria. Precisava fazer de tudo para economizar, pois precisaria de um Uber para voltar para casa. Desativei, portanto, toda a qualquer coisa que gastasse. Entre elas, o Amigos. Nem cinco (!!!!!) minutos depois começo a receber uma enxurrada de mensagens e ligações perguntando onde estava, com quem estava, porque desativei a localização. Logo no início disse o real motivo, mas não foi o suficiente. Assim, tive que correr para casa quando minha bateria indicou 1%.

Mais do que muito irritado, chego em casa e resolvo telefonar para resolver essa palhaçada. E ainda sou obrigado a escutar "a culpa não é minha que tua bateria estava acabando". Porque, obviamente, era minha, claro. Eu quem deveria ter ficado a pé para voltar para casa no meio da madrugada e terminado com toda carga respondendo a tolos questionamentos para alguém cuja ficha é mais suja do que pau de galinheiro.

O que aconteceu com o "quem ama confia"? E com o "a confiança é a base de tudo"? Sinceramente, acho que nunca fiz nada para despertar inseguranças. Eu nunca trai e ainda assim vivo tendo que dar explicações e sendo permanentemente monitorado, sufocado. Não há um vírgula que eu escreva que não seja observada e comentada e, dependendo, jogada constantemente na minha cara.

Oxigênio, é só isso que preciso. Meu espaço. Tenho esse direito... não?

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

O Formado


Então chegou o grande dia. Aquele que pode ser chamado o primeiro dia do resto da nossas vidas. Ao menos foi isso que a moça disse em seu discurso. Uma bonita cerimônia, excessivamente longa e entediante, mas que enchia os olhos. Se tem algo que a PUCRS sabe fazer é uma cerimônia de colação de grau. Ou simplesmente formatura, como todos que não trabalham na Proex preferem chamar.

Minha vida começou, portanto, no último dia 24. Um domingo. Às 18 horas. Um dos dias mais quentes do ano. E ao lado de outras 50 pessoas que eu sequer sabia ao certo o primeiro nome. Esse é um problema que ninguém nunca fala: atrasar a faculdade não significa ficar pagando por mais tempo ou semestres quebrados e cheios de créditos, significa que há uma grande chance de você não se formar com seus amigos.

O lado bom é que todos estão disponíveis para ir a sua festa. O ruim é quando conhecem outro formando e escolhem comemorar com ele. Isto pode ser algo que chateia alguém, mas não a mim, uma vez que nem festa ou coisa do gênero tinha interesse...

A primeira segunda-feira foi um bom dia de merecido descanso. Na terça já estava de saco cheio de não ter trabalho ou estudos para me ocupar. Quase duas semanas depois, estou arrancando os cabelos de tanto tédio.

Depois de enviar currículos para todos que me indicaram, para os anúncios que achei por aí e mandar (mais uma vez) um para Globo Condé Nast, fiz uma maratona de RuPaul's Drag Race e de (finalmente) assistir todo ciclo 21 de America's Next Top Model, fiquei sem muito o que fazer e com muito, muito, muito tempo livre em mãos. Já li, já vi filmes velhos e resolvi voltar a escrever um tanto. Para escrever sobre a vida, como sempre fiz, precisava ter uma vida.

Há tempos que eu não via minha amiga Maria Luiza. No caminho para vê-la veio o primeiro choque de tempo. Estava indo para casa dela. Não a casa da mãe dela, onde morava, mas a casa dela mesmo. Um simpático apartamento que divide com um outro rapaz. O tempo definitivamente passou, ainda que a gente não sinta. Chegando lá, também percebi que foi um erro por o para mim novo perfume da Versace e andar sob o sol.

Enquanto a gente conversava na sala, com os narizes cheios com o cheiro de cigarro e do forte Eros (obrigado Donatella!), minha cabeça ficava girando nessas questões. A vida não começou, ela apenas seguiu seu fluxo normal e eu quem fiquei muito tempo preocupado com conseguir por 36 créditos na minha grade de horários para o semestre e manter um estágio em um órgão público.

Pondo as tudo em perspectiva, não há muito o que reclamar da vida. Eu tenho uma casa, um namoro que já dura 4 anos  (!!!!!!!!!!), um pacote de internet móvel bastante decente, um cartão de crédito incrível com taxas baixas e sem anuidade, e uma poupança (!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!) com o suficiente para conseguir me manter longe das sarjetas por certo tempo.

Ainda assim o peso de estar formado sobrecarrega meus ombros e faz com que tudo pareça apenas relativamente bom. Recebo conselhos não solicitados de pessoas que não entendem plenamente o momento em que estou. Mas receber e-mails e ligações com propostas de emprego, nada. De forma meio sádica fiquei contente ao saber que outras pessoas que se formaram comigo também estão com certas dificuldades de se adaptarem ao status de "formado".

É bom ficar sem fazer nada quando se tem algo para fazer. Ficar à toa por não ter compromisso ou responsabilidade alguma no horizonte é simplesmente chato. O ócio me trouxe uma ideia de um milhão de dólares. Infelizmente, eu preciso de US$ 1.000.000,00 para conseguir pô-la em execução. Como não tenho ou terei nas próximas horas esse dinheiro, resolvi por os planos para essa revista em uma caixa de coisas para voltar a pensar depois do Carnaval. Um longo e solitário (graças a Deus) feriado em que pretendo ficar em casa na companhia de Carrie Bradshaw, Charlotte York, Samantha Jones e Miranda Hobbes.

Estou formando. Sou oficialmente um bacharel em comunicação social com habilitação em jornalismo. Apesar de não ter (ainda) o diploma, apenas o certificado, estou formado. Meu horizonte não é mais a Famecos, mas sim, bem, qualquer coisa. O mundo. Ou, no mínimo, a banca de revista onde vou religiosamente todo mês comprar minha GQ e Vogue. Foram 5 anos estudando e acho que agora mereço certo break da vida.

Os currículos já foram enviados para tudo quanto é lugar, não é muito mais o que se fazer neste sentido. Os planos da revista vão aos poucos se consolidando no fundo da minha mente. Como não tenho verba, também não tenho muito o que fazer a respeito. Meu namoro de quatro anos me parece bastante sólido, por tanto também posso me sentir relaxado quanto a isto. O único problema que esse formado vai se permitir esquentar a cabeça até o final do mês é esse Eros Versace que, apesar de bom, foi aplicado em excesso e está me sufocando.

terça-feira, 30 de setembro de 2014

O Não-Encontro



Não conhecia verdadeiramente o futebol americano até pouco tempo atrás. Devido a um trabalho da faculdade acabei me inteirando de como funciona o jogo. Hoje estou completmente encantado. Finalmente um esporte que eu gosto!

Mas calma! este não é um post sobre esporte, mas sobre um encontro. Ou um não-encontro que tive.

Alguns anos eu ouvi falar da existência do Porto Alegre Pumpkins, um time de futebol americano daqui da cidade. Não dei muita bola. Até que surgiu esse tal trabalho de aula e lembrei novamente da existência deles. Como o site deles estava muito desatualizado, descobri (e farei minha atividade sobre) o Porto Alegre Bulls - ou São José Bulls, realmente não entendi ainda qual é a do nome...

Tendo me tornado da noite para o dia um torcedor dos Bulls, entrei de cabeça no universo do futebol. Descobri, então, que os Bulls participam do Torneio Touchdown. E o melhor: haveria jogo ali na PUCRS! Sábado, dia 27, às 14 horas, entrada gratuita.

Fiquei contente a ansioso. Nunca havia efetivamente assistido uma partida entendendo o que se passava em campo. Na hora em que vi ficou certo na minha cabeça que ia. Mais: que ia acompanhado. Imediatamente tirei uma foto da imagem com dia, hora e local e coloquei como um momento do Tinder. E esperei. E esperei. E esperei. Então, um like. Um like de uma pessoa que não tem foto do seu rosto no perfil e nunca falamos nada. Logo, não foi algo válido. Seguia sem companhia.

As 24 horas que uma foto fica a disposição no Tinder se aproximavam do final e eu amargava a solidão. Quando veio mais um like! De uma pessoa em Caxias do Sul. Verdadeira desesperado, já planejava o discurso que usaria para convidar o cara bonitão que eu ainda sonho sair com. Mas quis o destino que antes de qualquer coisa, viesse mais um like.

Segundo o aplicativo, Calixto (mais um nome ficctício) tem 22 anos e mora bem perto da minha casa. Forte, alto e absrudamente bonito. E ainda tem aquela carcterística física que me atraí de forma inegável: um nariz comprido. Cheguei perto, admito, de quase estar apaixonado. Mas contreolei-me, afinal, nunca nos falamos.

Calixto não ficou apenas no like da imagem. Mostrando ser um rapaz de coragem, perguntou se eu já tinha escolhido alguém para ir comigo. Respondi que se ele estivesse livre, poderíamos ir. Então ficou combinado de encontrarmo-nos no Estádio da Puc às 13:30. Isto foi acertado na quinta-feira. Ainda neste mesmo dia, passei via app me celular, mas Calixto não estava mais online.

Passei os últimos dias da minha semana planejando como seria meu sábado, pois estar na Puc no horário combinado era imprenscindível para mim. Volta e meia dava uma olhada no Tinder para ver se ele comentava algo sobre nosso combinado ou colocava seu número também. Mas a última vez que Calixto ficou online foi na hora do nosso bate papo.

Chegou o grande dia e eu estava tranquilo. Levantei cedo até, assisti televisão, tomei banho, caminhei com o cachorro, enfim, tudo o que uma pessoa faz geralmente aos sábados pela manhã. Quando o relógio marcou 13 horas em ponto, sai de casa. Precisamente às 13:30, eu entrava no Estádio da Puc. O jogo começou com dez minutos de atraso. As arquibancadas estavam cheias. Mas Calixto não estava em lugar algum.

Três horas depois, R$ 60 a menos (comprei uma camiseta para mim e uma para meu irmão menor), um pouco mais gordo pelo hambúrger que comi e 68 pontos contra os Bulls (que só fez 3), o jogo terminou. E a última vez que Calixto esteve online seguia sendo na quinta-feira. Estava chateado, admito. As compras me alegraram um pouco, mas ainda assim havia aquela dor por ter levado o bolo e ter visto meu novo time perder.

O destino, entretanto, me deu um prêmio consolação. Via outro aplicativo, o Brother de Boa perguntou se eu estava pela Puc, se estava ocupado... Foi divertido. Rápido e divertido.

Voltei para casa tranquilo. Feliz até, tirei um auto retrato (vulgo selfie) com minha camisa dos Bulls. Usei a imagem como nova foto do Facebook, coloquei no Instagram e, claro, no Tinder. Meu celular grita horas depois. Notificação de like no Tinder. Calixto curtiu a foto. Nenhuma palavra dita sobre o bolo dado. Nenhuma palavra dita sobre nada, na verdade. Apenas uma curtida.

Desculpa Calixto, mas like não equivale a desculpas. Se é que ele considera isso como um ato de pedido de perdão... A dúvida que fica para mim é: o que leva uma pessoa a não aparecer a um encontro? Quero dizer, é tão complicado assim simplesmente aparecer ali no app e falar "ei, não vou poder ir"? É algo tão simples e educado. Sem falar que garante futuras saídas juntos. Se Calixto vier falar comigo, pedindo desculpas pelo bolo, perdoo a ele sem problema algum, só vou querer saber qual o motivo dele ter me deixado sozinho, no frio, cercado de gente que nunca vi na vida...

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Homens Sabem de Nada



Cleomirtes chegou se sentou ao lado de Eustaciana e de frente para mim. Ela acendeu um cigarro e tomou um gole de Coca-Cola. Havia um ar contente no rosto sempre risonho dela. Eu e Eustaciana trocamos olhares e encaramos nossa amiga. Nada precisou ser dito, ela logo riu e falou:

- Ai gente, estou louca para contar algo para vocês, mas não sei se devo.

- Agora fala! - dissemos os dois.

- Mas é meio nojentinho...

- Fala!

- Estou escorrendo.

Segundos em silêncio seguidos de estridente gargalhada dos três. Cleomirtes seguiu falando como o namorado dela de anos (que chamaremos de Vôncio) está cada vez melhor. Segundo ela, depois de anos, finalmente ele aprendeu como fazer tudo certo, se não o tempo todo, em 90% do sexo.

Aproveitando a deixa, Eustaciana nos conta do seu mais novo encontro resultado do Tinder. Tudo foi ótimo, o esquema de cinema + jantar, ida ao apartamento dele, os video games jogados no clássico Nintendo 64, os beijos, as carícias, as preliminares... Até a hora do sexo efetivamente.

- Não sei, na hora de colocar, não foi legal - disse Eustaciana comendo uma barrinha de KitKat - Ele fez tudo certo sabe, mas quando chegou o grande momento, algo deu errado.

- Doeu? - Cleomirtes joga a pergunta junto com uma baforada de fumaça

- Não, só foi... estranho. Será que sou eu a errada.

Tive então que intervir. Revelei para elas aquela verdade da qual todos os homens sempre querem fugir. Respirei fundo e disse: nenhum homem sabe o que está fazendo na hora do sexo.



Se em uma transa gay, em que são corpos similares, próximos, nenhum dos dois sabe muito bem o que fazer, podendo mais dar dor e incomodo ao outro do que prazer, quem dirá num caso hetero! Não falei sobre tudo que passei com Harvey Dent para elas, mas deixei claro que mesmo sendo homem ele me machucava às vezes, assim como eu a ele.

- Eu nunca tinha a menor ideia do que estava fazendo - disse - Assim como sabia que ele não sabia o que fazia. Mas a gente fazia. Vai indo e olhando para a cara da pessoa para tentar entender o que se passa. É um grande processo de adivinhação. E de sorte.

Elas parecem sincera e verdadeiramente surpresas. Sem querer, desvendei para elas todo o não-tão-complexo mundo sexual de quem tem um pênis. E nem precisei entrar em detalhes que humilhassem o Harvey para que houvesse plena compreensão. Então deixo para vocês aqui também a solução para um mistério da humanidade que a humanidade sequer sabe que tem:

Homens não sabem o que fazer na hora do sexo. E os que acham que sabem são os que mais vão acabar te fazendo sentir dor.