sexta-feira, 30 de setembro de 2011

O Fim do Mês


Tudo que começa, termina. É o que diz o ditado. Amores, amizades, tarde de compras, o limite do cartão, o mês... E este último me faz tremer. Dia 27, 28, 29. Cada dia fazendo o longuíssimo caminho até nossa caixa do correio. A mão que segura a chave treme. Os dedos não dão firmeza. Fecho os olhos. Respiro fundo. Abro a portinhola de metal.

Minha caixa do correio parece um animal feroz. Um animal cuja boca está aberta e que devo por minha inocente e alva mão dentro. Retirar das suas entranhas aquilo que não quero ver. Em um movimento rápido puxo a pilha de papéis. Ufa, não fui mordido. Fecho a portinhola.

O pior vem agora.

Propaganda... Propaganda... Conta que não é pra mim... Revista promocional... Correspondência que não me está endereçada... Conta que não sou eu quem paga... Visa.

O suor domina meus membros. Mãos inquietas. Lábio de baixo sendo mordido. Olhos bem abertos. Peito arfante. Coração em taquicardia. Joelhos fracos.

No isolamento de nosso quarto, em cima de nosso travesseiro – esse amigo de todas as noites que conhece nossos medos e bebe nossas lágrimas, e que está lindo na fronha comprada há dois dias! – abrimos à maldita. Com todo cuidado, como se estivéssemos mexendo com material radioativo altamente instável, tiramos as folhas e desdobramo-as.

Olhos fechado. Última respiração profunda. Afinal o que um pouco de tinta num papel pode ter de tão assutdor? Como band-aid, queremos fazer rápido para doer menos. Olhos abertos, correndo as páginas o mais rápido possível.

Bernardinha Teresinha Aman? Que é isso? Eu nunca comprei ou compraria num lugar com nome desses! Ainda mais 74 reais! Só podem ter clonado meu cartão! Não, péra... Eu comprei uma camiseta por 74. Esse deve ser o nome oficial da loja...

Não pode ser real... Quando eu gastei tudo isso? Que lojas são essas?!

Rápido, antes que alguém veja. Abre a mochila e joga esse nojento ser peçonhento lá dentro! Outra hora pensa-se sobre. Afinal, pra que pensar sobre agora se ainda tem a conta de outros dois cartões pra chegar, né?! E, quem sabe, não foi só um sonho e a correspondência não existe! Talvez deus a faça sumir!

E, enquanto essas outras criaturas asquerosas não chegam a minha casa, só nos resta uma coisa para fazer: caminhar no shopping.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Liquidação


O vento mudou. O tempo do sol no céu está diferente. Você já usou quase todos os looks possíveis do seu guarda-roupa. Isso só pode significar uma coisa: Liquidação. É troca de estação e as lojas precisam de espaço em suas prateleiras para as novas coleções. E como certeza nós devemos fazer essa boa ação de comprar duas peças pelo preço de uma.

E é uma correria. Cada vitrine mostra um SALE ou OFF maior do que a outra. Cada vendedor é mais querido. E cada oferta é mais tentadora do que a outra. O melhor é que são aquelas peças que você desejou durante quatro meses inteiros, mas por um motivo ou por outro não comprou. Novas paixões de ocasião também.

E as sacolas se multiplicam. A tua felicidade atinge pontos orgasmáticos. Você chega a pedir para embalar para presente algumas peças. E são perfumes, calças, moletons, casacos, sapatos, camisas, camisetas, livros... São sorrisos. É a felicidade.

Depois de tanto corre-corre para comprar tudo que lhe agrada antes que algum sem noção e sem bom gosto o faça, nada mais merecido do que um passeio na praça de alimentação. O que comer? De preferência algo bem pouco calórico, ou você nunca vai entrar naquela skinny da Zara que está ali linda, escura e nova só esperando um grande evento social para ser estreada, ou mesmo apenas uma ida a padaria.

Ao fim do dia, o ir até o carro (ou ao táxi). A sensação de poder. Ninguém é mais bonito, feliz ou poderoso do que você! O mundo está aos seus pés.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Quando o cartão não passa

Esta, para qualquer shopaholic, é a pior sensação do mundo: o cartão não passa.

Você se desclocou até o shopping, olhou as vitrines e escolheu os produtos (ou será que eles nos escolheram?). Seu reflexo no espelho do provador te deu a certeza: essa roupa TEM que ser sua, foi feita pra você! Sorrindo nos dirigimos ao caixa. Tiramos nosso Visa da carteira e pedimos para fazer em 2 vezes os R$110 da camiseta. Também sorrindo a moça passa seu cartão na máquina da Cielo, enquanto você preenche o cadastro da loja.

Discando... Processando...

A caixa não mais sorri.

Processando...

O frio na barriga começa. Você começa os monólogos internos. "Será que já estourei o limite? mas nem lembro de ter comprado tanta coisa assim..."

Não Aprovado.

Talvez tenha dado erro na linha, nos diz a vendedora passando de novo. Você chorando por dentro. "Sim, foi erro na linha" Agora vai passar e eu vou arrazar na vida com essa camiseta! Mas e se não for...

Não Aprovado.

Quer que eu tente de novo? Essa pergunta. Odeio. Como eu vou viver? Meu Visa está estourado! A camiseta não será minha! Deus, você não me ama!

Então começamos com as desculpas: Mas eu usei agora mesmo. Tem certeza que tua máquina está funcionando? Onde tem um caixa em que eu possa sacar? Vocês não aceitam este outro (e tira da carteira outros 800 cartões)?

A tristeza. O sair correndo da loja humiliado. Você viu seu sonho, tocou nele. Chegou a ouvir os elogios que receberia com aquela roupa. Tudo virou fumaça e escapou por entre seus dedos. A horrível sensação de que nunca mais será feliz ou que jamais ficará tão bem vestido quanto ficou com aquela peça que agora não pode mais ser sua.

Voltar na loja? Talvez em uns 5 anos em outro horário e dia.