terça-feira, 30 de setembro de 2014

O Não-Encontro



Não conhecia verdadeiramente o futebol americano até pouco tempo atrás. Devido a um trabalho da faculdade acabei me inteirando de como funciona o jogo. Hoje estou completmente encantado. Finalmente um esporte que eu gosto!

Mas calma! este não é um post sobre esporte, mas sobre um encontro. Ou um não-encontro que tive.

Alguns anos eu ouvi falar da existência do Porto Alegre Pumpkins, um time de futebol americano daqui da cidade. Não dei muita bola. Até que surgiu esse tal trabalho de aula e lembrei novamente da existência deles. Como o site deles estava muito desatualizado, descobri (e farei minha atividade sobre) o Porto Alegre Bulls - ou São José Bulls, realmente não entendi ainda qual é a do nome...

Tendo me tornado da noite para o dia um torcedor dos Bulls, entrei de cabeça no universo do futebol. Descobri, então, que os Bulls participam do Torneio Touchdown. E o melhor: haveria jogo ali na PUCRS! Sábado, dia 27, às 14 horas, entrada gratuita.

Fiquei contente a ansioso. Nunca havia efetivamente assistido uma partida entendendo o que se passava em campo. Na hora em que vi ficou certo na minha cabeça que ia. Mais: que ia acompanhado. Imediatamente tirei uma foto da imagem com dia, hora e local e coloquei como um momento do Tinder. E esperei. E esperei. E esperei. Então, um like. Um like de uma pessoa que não tem foto do seu rosto no perfil e nunca falamos nada. Logo, não foi algo válido. Seguia sem companhia.

As 24 horas que uma foto fica a disposição no Tinder se aproximavam do final e eu amargava a solidão. Quando veio mais um like! De uma pessoa em Caxias do Sul. Verdadeira desesperado, já planejava o discurso que usaria para convidar o cara bonitão que eu ainda sonho sair com. Mas quis o destino que antes de qualquer coisa, viesse mais um like.

Segundo o aplicativo, Calixto (mais um nome ficctício) tem 22 anos e mora bem perto da minha casa. Forte, alto e absrudamente bonito. E ainda tem aquela carcterística física que me atraí de forma inegável: um nariz comprido. Cheguei perto, admito, de quase estar apaixonado. Mas contreolei-me, afinal, nunca nos falamos.

Calixto não ficou apenas no like da imagem. Mostrando ser um rapaz de coragem, perguntou se eu já tinha escolhido alguém para ir comigo. Respondi que se ele estivesse livre, poderíamos ir. Então ficou combinado de encontrarmo-nos no Estádio da Puc às 13:30. Isto foi acertado na quinta-feira. Ainda neste mesmo dia, passei via app me celular, mas Calixto não estava mais online.

Passei os últimos dias da minha semana planejando como seria meu sábado, pois estar na Puc no horário combinado era imprenscindível para mim. Volta e meia dava uma olhada no Tinder para ver se ele comentava algo sobre nosso combinado ou colocava seu número também. Mas a última vez que Calixto ficou online foi na hora do nosso bate papo.

Chegou o grande dia e eu estava tranquilo. Levantei cedo até, assisti televisão, tomei banho, caminhei com o cachorro, enfim, tudo o que uma pessoa faz geralmente aos sábados pela manhã. Quando o relógio marcou 13 horas em ponto, sai de casa. Precisamente às 13:30, eu entrava no Estádio da Puc. O jogo começou com dez minutos de atraso. As arquibancadas estavam cheias. Mas Calixto não estava em lugar algum.

Três horas depois, R$ 60 a menos (comprei uma camiseta para mim e uma para meu irmão menor), um pouco mais gordo pelo hambúrger que comi e 68 pontos contra os Bulls (que só fez 3), o jogo terminou. E a última vez que Calixto esteve online seguia sendo na quinta-feira. Estava chateado, admito. As compras me alegraram um pouco, mas ainda assim havia aquela dor por ter levado o bolo e ter visto meu novo time perder.

O destino, entretanto, me deu um prêmio consolação. Via outro aplicativo, o Brother de Boa perguntou se eu estava pela Puc, se estava ocupado... Foi divertido. Rápido e divertido.

Voltei para casa tranquilo. Feliz até, tirei um auto retrato (vulgo selfie) com minha camisa dos Bulls. Usei a imagem como nova foto do Facebook, coloquei no Instagram e, claro, no Tinder. Meu celular grita horas depois. Notificação de like no Tinder. Calixto curtiu a foto. Nenhuma palavra dita sobre o bolo dado. Nenhuma palavra dita sobre nada, na verdade. Apenas uma curtida.

Desculpa Calixto, mas like não equivale a desculpas. Se é que ele considera isso como um ato de pedido de perdão... A dúvida que fica para mim é: o que leva uma pessoa a não aparecer a um encontro? Quero dizer, é tão complicado assim simplesmente aparecer ali no app e falar "ei, não vou poder ir"? É algo tão simples e educado. Sem falar que garante futuras saídas juntos. Se Calixto vier falar comigo, pedindo desculpas pelo bolo, perdoo a ele sem problema algum, só vou querer saber qual o motivo dele ter me deixado sozinho, no frio, cercado de gente que nunca vi na vida...

quinta-feira, 25 de setembro de 2014

Homens Sabem de Nada



Cleomirtes chegou se sentou ao lado de Eustaciana e de frente para mim. Ela acendeu um cigarro e tomou um gole de Coca-Cola. Havia um ar contente no rosto sempre risonho dela. Eu e Eustaciana trocamos olhares e encaramos nossa amiga. Nada precisou ser dito, ela logo riu e falou:

- Ai gente, estou louca para contar algo para vocês, mas não sei se devo.

- Agora fala! - dissemos os dois.

- Mas é meio nojentinho...

- Fala!

- Estou escorrendo.

Segundos em silêncio seguidos de estridente gargalhada dos três. Cleomirtes seguiu falando como o namorado dela de anos (que chamaremos de Vôncio) está cada vez melhor. Segundo ela, depois de anos, finalmente ele aprendeu como fazer tudo certo, se não o tempo todo, em 90% do sexo.

Aproveitando a deixa, Eustaciana nos conta do seu mais novo encontro resultado do Tinder. Tudo foi ótimo, o esquema de cinema + jantar, ida ao apartamento dele, os video games jogados no clássico Nintendo 64, os beijos, as carícias, as preliminares... Até a hora do sexo efetivamente.

- Não sei, na hora de colocar, não foi legal - disse Eustaciana comendo uma barrinha de KitKat - Ele fez tudo certo sabe, mas quando chegou o grande momento, algo deu errado.

- Doeu? - Cleomirtes joga a pergunta junto com uma baforada de fumaça

- Não, só foi... estranho. Será que sou eu a errada.

Tive então que intervir. Revelei para elas aquela verdade da qual todos os homens sempre querem fugir. Respirei fundo e disse: nenhum homem sabe o que está fazendo na hora do sexo.



Se em uma transa gay, em que são corpos similares, próximos, nenhum dos dois sabe muito bem o que fazer, podendo mais dar dor e incomodo ao outro do que prazer, quem dirá num caso hetero! Não falei sobre tudo que passei com Harvey Dent para elas, mas deixei claro que mesmo sendo homem ele me machucava às vezes, assim como eu a ele.

- Eu nunca tinha a menor ideia do que estava fazendo - disse - Assim como sabia que ele não sabia o que fazia. Mas a gente fazia. Vai indo e olhando para a cara da pessoa para tentar entender o que se passa. É um grande processo de adivinhação. E de sorte.

Elas parecem sincera e verdadeiramente surpresas. Sem querer, desvendei para elas todo o não-tão-complexo mundo sexual de quem tem um pênis. E nem precisei entrar em detalhes que humilhassem o Harvey para que houvesse plena compreensão. Então deixo para vocês aqui também a solução para um mistério da humanidade que a humanidade sequer sabe que tem:

Homens não sabem o que fazer na hora do sexo. E os que acham que sabem são os que mais vão acabar te fazendo sentir dor.


terça-feira, 23 de setembro de 2014

Trauma de Webcam




"Oi, tudo bem?"
"Tudo bem"
"Fazendo o que?"
"Nada de mais... e tu?"
"Batendo umazinha aqui para relaxar hehehe"

Assim que meu ex namorado - o chamaremos de Harvey Dent - começava uma das suas inúmeras sessões de sexo virtual. Nenhuma, entretanto, comigo.

Façamos justiça: ele me chamou umas três vezes em 1 anos e 8 meses juntos. Duas eu acabei aceitando. Uma eu não pude e vim a saber, tempos depois, que isso não foi impedimento para que ele fizesse sexo via webcam.

Desde sempre fui avesso a ideia pura e simples desta câmera online. Ter alguém te observando o tempo todo enquanto se está conversando não é bacana, afinal tu está no computador, tem um mundo de coisas para fazer ao mesmo tempo e não pode ficar dando atenção para a pessoa com quem conversa. Mas quando a câmera está ligada, a atenção ao papo vira prioridade. Maiores intimidades então, pior ainda! Sexting se resolve fácil, enviando fotos mais antigas. Sexo virtual tem que ser ali na hora de verdade.

Nunca entendi porque as pessoas o fazem quando não estão em um relacionamento a distância (e por distância quero dizer um em cada estado/país/continente). E sim, se tu está comprometido seriamente com alguém, fazer sexo virtual com outra pessoa é traição. Ainda que Harvey gostasse de pensar nesta prática (nojenta) como apenas masturbação, eu sempre disse o que isto era quando vim a descobrir.

Foi num repente de insegurança que me fez pegar o celular dele e revirar as mensagens do Facebook. E lá estavam. Sendo um da data em que neguei a ele a interação. Conversamos, debatemos, choramos. Ele jurou que pararia. Durante nosso namoro ele jurou muitas coisas que jamais sequer pensou em cumprir. Em outros momentos em que voltei a fuçar na rede social dele, fui encontrando mais e mais conversas, cada vez mais recentes. Pessoas que ele sequer conhecia pessoalmente, que adicionou apenas para isso e com quem nunca falou outra coisa, a maioria menor de idade. Gente que o conhecia como "tio da punheta".

Esta incapacidade de Harvey de ser fiel online foi um dos grandes motivos que fizeram com que nosso namoro terminasse. Foi também o que me deixou com um verdadeiro trauma e nojo de webcams. E acho que apenas graças ao fato dele usar também plataformas como Skype, Hangouts e WhatsApp, que não peguei asco também do Facebook. Honestamente, se houvesse uma versão do MacBook Air sem câmera, era esta que eu teria comprado (até porque seria mais barata, imagino)

Hoje, solteiro e vendo tudo de forma mais ampla, não compreendo como aguentei por tanto tempo ou porque me humilhei em frente a uma câmera filmadora. Sei que Harvey certamente já está refazendo sua rede de contatos. Sei também que nunca mais farei sexo virtual, não importa o quanto me peçam. Serei estúpido e grosseiro se insistirem, na verdade.

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Um Nobre sem Palavras



O Campus de qualquer universidade é sempre um ambiente repleto das mais distintas pessoas. São milhares de pessoas entre estudantes, professores, funcionários, simples transeuntes. Milhares de rostos que passam apressados e pouco reparam uns nos outros. Quantas vezes tu e o amor da tua vida não se cruzaram pela universidade e não se viram? Ou mesmo quantas vezes será que vocês não se desencontraram simplesmente por tomarem caminhos distintos para contornar um prédio?

Um dos muitos alunos de uma faculdade é Auro. Rapaz de bem com a vida, porém que já se desiludiu amorosamente tantas vezes que já desistiu de tentar encontrar um príncipe encantado. E, num despretensioso dia invernal, ele caminhava a caminho de sua faculdade quando fez uma também despretensiosa parada para fazer xixi. Foi quando conheceu Erick.

A princípio, nada de mais. Uma trocada de olhares pelo espelho e um sorriso malicioso de Erick, respondido por um sem jeito de Auro. Completamente desconcertado pela flertada recebida, Auro sai do banheiro e segue seu caminho. Ele sente, então, um estranho arrepio atrás das orelhas. Algo diz para que olhe para trás. Pouco mais de dez passos de distância está Erick, com o mesmo sorriso torto encantador.

Coração dispara e as dúvidas pululam na cabeça de Auro. Nervoso querendo compreender o que se passa, escolhe dobrar em um dos caminhos nunca utilizados do Campus, onde ficam as gigantescas caixas d'água de um prédio. Auro reduz o passo, Erick acelera. O dono do sorriso torto puxa o nervoso rapaz e o beija. Um beijo intenso, profundo e cheio de desejo, de ambas as partes. Ficam assim por uns bons vinte minutos, até que Erick precisa ir. Sem dizer absolutamente nada, apenas mostrando os dentes brancos.

Completamente abobalhado, Auro repassa os momentos mentalmente e escolhe esquecer. Certamente aquilo não aconteceria. Mas aconteceu. Exatamente uma semana depois. E o mesmo se repetiu na semana seguinte. Sempre da mesma forma, no mesmo local e numa constante falta de palavras.
 
No quarto encontro, respectivamente na quarta semana, ao final do momento agarração, Auro faz algo impulsivo: pega na sua mochila um papel e caneta e anota o próprio telefone. Erick olha e franze a testa para o papel. Os números não são completamente legíveis. Ainda sem falar nada, ele pega a caneta, a mão de Auro e escreve o seu telefone. Então sai, completamente em silêncio. Como sempre.

Auro não está apaixonado, mas ainda assim espera que a semana seguinte chegue logo. Erick - o nome que ele resolveu chamar o rapaz do sorriso torto - talvez não seja o príncipe encantado, mas certamente é um duque silencioso ou mesmo um lorde bem dotado. É exatamente este o tipo de coisa que Auro buscava par si mesmo, algo sem cobranças, sem perguntas, sem incomodações. A princípio, os dois estão como querem: em silêncio, apenas aproveitando.


quinta-feira, 18 de setembro de 2014

O Novo Mundo dos Solteiros



Era uma vez um garoto que era gay e estava ok com isso. Como todo solteiro, foi a uma festa num sábado a noite. Era verão e estava quente. O ambiente fechado estava agradável, graças ao ar condicionado. Mas as músicas não estavam muito boas e do dinheiro levado, só o reservado do táxi ainda restava.

E foi na hora de ir embora que a mágica do destino se manifestou. A multidão se abriu e ali, em um foco de luz, estava o príncipe encantado. "Bonito demais para mim" pensou o garoto "Provavelmente é um hetero que está aqui por acaso". Não era. E ele quis o garoto.

Quando foram ver, estavam namorando há meses. E tudo parecia no lugar e alegre. O príncipe encantado era alguns anos mais velho e os dois estavam perfeitamente confortáveis com isso. Então chegou o dia em que as coisas desandaram, como uma maionese batida a duas mãos. As frases não se encaixavam e o desejo de passar tempo juntos sumiu. O príncipe se revelou um gorducho sapo e o namoro se desfez assim como começou: ninguém disse nada que oficializasse, mas sabiam o que se passava.

Solteiro, nosso jovem herói foi olhar para o mundo solteiro pela primeira vez em quase dois anos. E como tudo estava mudado! Lá, naquele verão em que fora a festa, smartphones eram uma realidade em crescimento (ele mesmo não tinha um). Agora, são verdade consolidada e necessária. Logo ficou claro que conhecer pessoas da romântica forma que os filmes dos anos 80 e 90 ensinaram não existia mais. Percebendo a nova natureza dos (inícios) de relacionamento/flerte/conhecimento, rendeu-se - ainda que sem luta - aos aplicativos.

E são tantos! Tinder, Scruff, Grindr, Bender, Moovz, GuySpy, Hornet, etc.



Escolhido o que parecia mais inocente, fez seu login e esperou. A ideia é simples e instintiva: aperta-se no X vermelho quando não gosta e no coração verde quando gosta. Se os dois se gostaram, voilà! Vocês podem agora conversar via chat.

No início parecia promissor. Rendeu algumas risadas, um ou outro print screen e alguns perfis interessantes. A lógica deste aplicativo acaba se mostrando a mesma de comprar algo: olha, se interessa, dependendo pede informações mais detalhadas sobre o produto e seleciona. Ao final de um dia de uso, 15 haviam também selecionado o garoto.

Um corajoso (e bonito) se aventura no primeiro "oi". Começa então aquele questionário de perguntas desinteressantes, porém servem para iniciar uma conversa. O papo flui, com alguns por menores, mas parece ser algo promissor. Poderia esse ser um novo príncipe encantado? No auge da ingenuidade e sonhos do jovem garoto, o rapaz do aplicativo diz:

"Procuro alguém alto, forte e que se cuide para viver algo legal. É você?"
"Alto e forte... Creio que não :P" - aqui nosso personagem ainda tinha esperanças
"Mede quanto?"
"1.69"
"Baixo mesmo. Tenho 1.78, não vai dar. Boa sorte"

E dessa forma abrupta ele entendeu: assim como tu não compra algo que tu realmente goste, a nova lógica de relacionamentos também não permite que tu tenha alguma imperfeição. Tu é escolhido de uma longa lista de "pretendentes", tens que corresponder as expectativas de personalidade, altura, tipo físico, gostos, voz, até mesmo cheiro se bobear. 

Em quase dois anos, o mundo dos relacionamentos se tornou ainda mais selvagem. Antes era preciso de coragem para se aproximar de alguém e conhecer essa pessoa. Hoje, a aproximação é fácil. O difícil é conseguir alguém sem mentir ou omitir algumas informações sobre ti.

Apesar do soco na autoestima que foi o primeiro contato, idealizador e romântico, o garoto continuou dando likes ou nopes. E entre uma infinidade de rapazes estranhos, bonitos, engraçados, horríveis, conhecidos até, eis que surge ele. Aquele ex da adolescência. O primeiro namorado estava ali, esperando por um X ou <3. Pensando que não daria em nada, foi apertado o botão verde. A tela pisca: ele também apertara o botão verde.

As surpresas estavam saindo de controle. O que o like dele poderia significar? Só havia uma forma de saber: perguntado. Armado de coragem, nosso bravo garoto vai e escreve um textinho engraçado convidando para que, de repente, saíssem. Afinal, não se falavam há anos, poderiam ao menos por o papo em dia. Mensagem enviada, espera.

As horas passam e nenhum sinal de vida. Até que finalmente o ex fica online. E, com uma única ação termina de derrubar a autoestima que já estava ferida. Ele simplesmente mudou de opção, colocou o X para o garoto.

Cruzar com esse mesmo ex na rua, no mesmo dia, algumas horas depois, sem dúvidas é motivo para um cigarro. Ou oito. Sem amor próprio algum, o garoto senta na sua cama, arrasado pelo brutal novo mundo dos solteiros. Olhando para a tela do seu Samsung, onde lê-se Não há ninguém perto de você, uma questão se insinua: haveria agora autorização para fumar? Talvez isso devesse ser ocultado dos próximos corações verdes recebidos...


domingo, 14 de setembro de 2014

Bad Kisser = Bad Fucker



Eustaciana voltou para a vida de solteira. Chato e sofrido o processo. Terminar um relacionamento sempre nos coloca para baixo. Vivemos um verdadeiro luto, com direito as 5 fases e tudo mais. Mas não podemos nos afundar na tristeza e deixar de viver.

Ciente de que era necessário tocar a vida, Eustaciana baixou o Tinder. Após um momento de receio quando ele solicitou para pegar informações do Facebook, ela conheceu o novo jeito de conhecer gente. E foi deslizando o dedo para esquerda diversas vezes e para direita algumas que encontrou um rapaz que parecia ser um bom partido.

Match!

Com a opção de chat aberta e o "oi" dele esperando por uma resposta, ela foi dar uma olhada no perfil. A primeira foto era bem genérica. Um rapaz de 25 anos, cabelos castanhos curtos, sorriso de dentes brancos e parelhos, um efeito de Instagram, pele saudavelmente bronzeada, nariz reto, camiseta azul. As outras duas fotos não revelavam muito mais, apenas uma barriga bem definida e peitoral trabalhado. Chamaremos ele de Cleostrôncio.

Eustaciana e Cleostrôncio conversaram. E conversaram. E conversaram. A coisa parecia promissora. Em um arroubo de coragem às 2:44 da manhã, Cleostrôncio pergunta se ela estaria afim de encontrá-lo no final de semana que se aproximava. Eustaciana aceita e vai dormir, pela primeira vez em dias, com o coração leve.

Dia e hora finalmente chegam. Os dois se encontram e conversam mais. Não é só virtualmente que a química existe. As horas passam como se fossem segundos e o pub em que eles estavam tem que fechar. Por morar perto, Cleostrôncio convida Eustaciana para ir para casa dele.

No elevador, enquanto ela se pergunta se estará louca de aceitar ir assim para a casa de alguém que nem conhece bem, ele a puxa e beija. Mal. Muito mal. Na realidade este entra a vida de Eustaciana como o pior beijo de todos. Pensando que a culpa disto foi do fato de ter sido um beijo roubado e rápido, ela contraria seus instintos e segue para dentro da casa dele.

Um copo de água depois, Cleostrôncio avança de novo. Mais devagar dessa vez. E, agora, não há desculpa: ele não sabe beijar. Ainda assim Eustaciana resolve seguir em frente, afinal, ele pode compensar o beijo ruim na cama. Ela segue em frente, apesar de ouvir a voz de todos os seus amigos que sempre disseram que um cara que não sabe beijar, não sabe foder.

Foram os piores dez minutos da vida sexual dela. Em tese o que Cleostrôncio fazia era o correto, mas não estava certo. Ela não chegou nada perto de sentir o mínimo de prazer, quem dirá um orgasmo! Ao menos não foi doloroso.

Logo que ele caiu na cama, sorrindo com seus dentes brancos e parelhos, com a camisinha cheia ainda no pau que murchava, ela se levantou, dizendo que precisava de um banho rápido. E ficou meia hora debaixo da água quente elaborando uma desculpa para ir para casa.

Após fechar o chuveiro, não levou cinco minutos para Eustaciana dizer que tinha que acordar cedo par viajar para serra e estar na calçada em frente ao prédio esperando o táxi. O telefone dele, tão gentilmente anotado em um pedaço de papel e entregue para ela antes de sair do apartamento, acabou ficando convenientemente sobre a bancada da cozinha do rapaz. Ela deveria ter ouvido aos próprios instintos e aos conselhos dos amigos.

Assim, por todo caminho de casa, Eustaciana foi repetindo mentalmente, como se fosse um mantra: "se beija mal, fode mal". Ela só foi pensar outra coisa quando o perfil de Geronistiano, 32, apareceu no Tinder.

E mais um Match!

Agora é torcer para que com este ela dê mais sorte. Porque tu até pode ensinar um cara a beijar, mas a fazer sexo... Bem, isso não é algo muito ensinável se a pessoa não tem um conhecimento básico.


sábado, 13 de setembro de 2014

Sobre Ter Opinião



Que se passa com a sociedade brasileira? Não sou dado a textos reflexivos sobre a sociedade, mas este será um, até porque talvez esse blog seja o único espaço onde, por ora, posso me manifestar em paz.

Vejo todos os dias as pessoas querendo uma sociedade mais inclusiva, plural e democrática. Porém, isso exclui todos os que pensam diferente. Será que não percebem que ter uma sociedade "avançada" passa sim por ter gente com discursos que não são o da maioria? Não percebem que isso é o que significa democracia?

A constituição nacional de 1988 diz claramente que existe no Brasil o direito a livre manifestação do pensamento. Mas não para estes que pregam a "nova" comunidade inclusiva, plural e democrática. Aí de ti se for contra a tal da causa gay e apontar seus muitos erros e falhas! Não se pode nem sonhar em usar a expressão "ditadura gay" sem receber uma enxurrada de críticas. Agora, diga que que está se instalando no país uma "ditadura evangélica" que receberá aplausos e compartilhamentos.

Concordei com um texto que diz para que determinado pastor polêmico entre com um processo contra certo deputado federal homossexual, uma vez que este político distorceu o discurso do religioso única e exclusivamente para incitar o ódio da comunidade GLS contra aqueles que pensam diferente. Ora, que democracia é essa em que não tenho o direito de concordar com um texto que sugere que um cidadão busque justiça?

Hoje em dia tudo está se tornando crime de ódio. As pessoas não estão interessadas em ouvir todos os fatos e esperar o resultado das investigações. Se a vítima for parte de um grupo de minoria, então a violência sofrida só pode ser por conta disto. Atenção! Não estou dizendo que não existam ações  de dano movidas por homofobia, racismo, etc, apenas destacando que nem tudo é fruto disto. A mídia alternativa - que alimenta essa sociedade inclusiva, plural e democrática - julga antes mesmo da polícia iniciar as investigações. Me digam que faculdade de jornalismo fizeram, pois na minha não há esta cadeira que nos deixa mais rápidos e sábios do que peritos que treinaram anos para identificar provas e evidências. E, até onde me recordo, um dos princípios da profissão é não fazer julgamento de valor, apenas dar as informações para que o leitor tire suas próprias conclusões.

Ainda outro dia, vendo os desenhos que passam na tv, comecei a pensar: o que diabos aconteceu com o mundo? Hoje os heróis das crianças são monstros. Literalmente. Monster High é o maior exemplo: zumbis, vampiros, lobisomens e sei lá mais o que que frequentam a escola. Lembro da época em que os heróis eram personagens como o Batman, que caçava os monstros. E hoje, o Coringa é mais amado que Bruce Wayne. E aí de mim se for ao Facebook e Twitter falar que o referencial das crianças para colégio deveria ser as Três Espiãs Demais ou Doug!

Tudo o que quero, em última instância, é apenas manter meu direito constitucional como cidadão brasileiro de poder discordar do que alguns acham que é o correto. Assim com eu respeito o de todos que são a favor da causa que for. Não precisamos concordar, apenas nos respeitar e aceitar. Afinal, é assim que se constrói uma verdadeira sociedade mais inclusiva, plural e democrática.

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Cartas de Amor



Pobre do romantismo nessa era tecnológica! Cada vez mais cartas de amor são substituídas por mensagens de WhatsApp ou, na melhor das hipóteses, e-mails com um título genérico.

Carta de amor é um costume que deveria ser incentivado nas escolas. É algo incrível receber duas, três páginas de texto escrito a mão, com palavras riscadas e, muitas vezes, com um perfume nas folhas. Só de pensar que alguém dedicou tanto tempo de vida para sentar e por tudo aquilo no papel, pensar que uma pessoa sente aquilo tudo por ti, é uma bela de uma bombada de ar no nosso ego.

Mas, como já defendi antes, em outros contextos, é melhor dar do que receber. São dias em verdade pensando no que será redigido, em que papel, com que caneta, como será entregue, como será assinada a mensagem... Escrever uma carta apaixonada certamente constrói um bom karma para gente - e sequer é esse o objetivo.

Talvez apenas os tempos sejam outros, mas fico me perguntando: por que isso está morrendo? Será que as pessoas estão com mais medo de mostrar seus sentimentos? Ou simplesmente não o querem registrado para eternidade?

Quem não tem guardado as cartas recebidas - muitas vezes de forma anônima - ainda nos tempos de colégio? Eu tenho uma ou duas apenas (não que tenha recebido mais do que isso...). É algo gostoso pegar as folhas e reler, lembrar de uma outra época da vida em que namorar era simples, sem essa coisa chamada se sexo para complicar. Mais: trazer de volta a mente um período onde tudo é novo, não existe ex, tudo é "para sempre" e vivemos de vomitar os nossos sentimentos a torto e a direito para o outro.

Ainda que esses textinhos juvenis sejam ótimos para momentos de nostalgia, aos relacionamentos de hoje também faria bem este geto romântico. Mesmo que estajmos cheios de cicatrizes do passado e já tenhamos aprendido que nem sempre o "para sempre" é para sempre, é importante acreditar. E deixar o outro saber como nos sentimos.

Os tempos podem ser outros e o romantismo estar se reiventado, e o arcaico aqui ainda pensando em cartas e envelopes. Duvido, entretanto, que se um destes jovenzinhos que passam o dia mandando mensagens de "eu te amo", "eu te amo mais", "vc eh a minha vida", etcetc por meio eletrônico e que facilmente se perde nas timelines, não iriam se comover e alegrar com um texto a mão. E com perfume!

domingo, 7 de setembro de 2014

Solteiro Sim, Obrigado!



Então aqui estou: solteiro e contente. Eu tenho um internet funcionando a contento, um MacBook que ainda tem o mesmo brilho de quando o tirei da caixa pela primeira vez, um celular funcionando como deve, um reprodutor de DVD completamente novo (que não precisa de nenhuma gambiarra para funcionar), diversos episódios de Sex and the City esperando para serem assistidos, um blog que tem cada vez mais acessos, dinheiro no banco e uma pilha de livros teóricos/sociológicos que muito me agradam. Sinceramente, por que eu precisaria de alguém ao meu lado?

Este é um conceito da sociedade que realmente não entendo. Parece que qualquer coisa que se faça só tem valor, legitimidade se há alguém que não seja parente para dizer "parabéns". As pessoas vão chegando já com o discurso de "em breve irá encontrar seu amor". Não, obrigado. Recém fiquei solteiro, não há chances de voltar e também não quero conhecer quem quer que seja.

O incrível é que foi só eu ficar solteiro para os convites para sair pipocarem por aí. Mais incrível ainda é gente que eu não vejo há séculos - e para quem nunca dei meu telefone - me enviar uma mensagem via WhatsApp! 

Acontece que eu não quero nem ao menos dar uma chance para alguém neste momento. Fazer sexo então nem se fala! Estou celibatário por opção. E feliz, diga-se de passagem. 

Por mais que isso tudo faça com que eu me sinta bastante satisfeito, fica uma pulga atrás da orelha. Nunca fui desejado dessa forma em momento nenhum da minha vida, então não seria errado estar rejeitando um por um? Será que vou receber um castigo divino por estar deixando todo mundo passar, conhecidos ou não?

Vou pagar para ver. Enquanto minha garganta estiver irritada, seguirei recusando gentilmente os convites para sair. E rezando para que, no futuro, ainda haja interesse destes cidadãos em mim. Enquanto isso vou aproveitar ao máximo este período tão meu, tão íntimo e libertador. De certa forma, eu tenho tudo que posso querer.

"Só que, assim, ninguém sabe mim"



Mulheres heteros não querem ouvir que o cara com quem estão saindo é casado. Homens, que elas têm filhos. Gays não querem ouvir: "só que, assim, ninguém sabe mim"

Quando se tem 16 anos, ok ouvir isso. É o normal e há a disposição juvenil para passar por essa fase com aquela paixão. Existem os estresses envolvendo famílias e encontros secretos, mas a idade acha tudo isso interessante, emocionante, apaixonante até certo ponto. A pouca experiência de vida somada a uma onipotência adolescente nos faz engolir um relacionamento pautado pelo segredo. E está tudo maravilhoso.

Aos 18 anos, bom a coisa já fica menos bacana. Mas tudo bem, é uma fase nova da vida. Os dois maiores de idade tem o mundo, literalmente, para explorar. Ao invés de ficarem se agarrando na calada da noite no quarto de um deles ou pelo cantos do prédio longe das câmeras de segurança, agora existem festas ao montes ou mesmo um motel, caso um já tenha CNH. A liberdade que vem com a maioridade legal compensa, por um tempo, o fato de tudo ter que ser secreto.

Com 20 anos esse discurso já começa a soar cansativo. Tudo bem que ainda existe um tanto de coisas que podem vir a ser feitas, novos lugares a se descobrir, porém vão compensar menos e por um período de tempo reduzido o fato de nunca ser apresentado para família ou amigos ou mesmo assumido para a sociedade.

Chegar aos 22 anos e escutar "só que, assim, ninguém sabe mim", faz com que se revire os olhos de forma descarada. Não há mais saco para ficar ali, dando apoio moral, sendo compreensivo e tentando ver o lado bom, aproveitar o máximo do que se tem. Simplesmente chegamos a essa idade em que não há vontade de sentar para ver de novo e mais uma vez a mesma história falida. Até porque já foi aprendido que uma vez que o cidadão resolve assumir sua sexualidade, termina o namoro.

Queria muito entender isso. É como se a pessoa dissesse "ei, valeu pelo apoio aí, por ter sido minha escada para a vida assumida, mas agora preciso mais não. Falou aí, a gente se esbarra". Por que isso hein? Para que sugar toda a disposição e boa vontade da pessoa que só quer o teu bem se quando tu chegar ao teu objetivo vai dispensá-la?

Particularmente, tenho um imã para "só que, assim, ninguém sabe mim". E eles vem nas mais variadas idades, dos 20 aos 40, sempre com o mesmo discurso. Porém minha cota de primeiro namorado nessa vida já estourou. Antes um alguém com um passado firme do que um que não me dá sérias perspectivas de futuro.

Vejo o pessoal mais religioso/conservador dizendo que vivemos uma "revolução gay". Se é assim, por que segue tenta gente dentro dos armários? Estamos praticamente na metade da segunda década do século XXI! Vamos tomar coragem (ou tequila mesmo) e para de sofrer, por favor. Assumam, definam de uma vez sua sexualidade antes de querer se enfiar em relacionamentos, façam esse favor. É o melhor para todos.

sábado, 6 de setembro de 2014

Pequenos Prazeres



Sempre correndo e estressados, muitas vezes nós acabamos nos deixando de lado. Tudo que fazemos passa a ser por obrigação, porque tem que ser feito. É isso, este é o preço que se paga por viver no século XXI e por toda a revolução tecnológica que passamos e ainda estamos passando. Abrimos mão de muita coisa para que prazos, metas, datas, compromissos e cronogramas sejam cumpridos e respeitados.

Essa louca jornada de vida faz com que as pessoas fiquem apenas infelizes e reclamonas. E a coisa toda só piora quando há acomodação nessa rotina. Uma rotina que só tem alívio quando chega o happy hour, onde muitos vão também mais por obrigação de "fazer social" do que realmente querer aquele tipo de divertimento ou mesmo a companhia dos colegas de trabalho.

Pois que a única vantagem da rotina estressante são os pequenos prazeres individuais. Aqueles tão nossos que quando estamos em um relacionamento afetivo, acabamos por deixar de lado. Esta é uma agressão que fazemos com a gente mesmo, uma agressão que só se percebe a longo prazo.

Agora, voltando a vida de solteiro depois de um ano e oito meses me negando determinadas coisas sem nem ao menos perceber, vejo como isso tudo me fez falta. Importante ressaltar que no meu caso e nos casos gerias que trato aqui, não houve obrigação de abandono de nada ou mesmo uma decisão deliberada. São apenas práticas que acabaram sufocadas devido a (falta de) organização das nossas vidas.

Eu hoje percebo como sentia falta das minhas sextas-feiras! A noite, principalmente. Ficar em casa, sem me preocupar em dar explicações ou com peso na consciência por ter ~cortado o barato~ do outro. E da mesma forma, ele eu imagino que sentia falta de ir para o litoral todos os finais de semana.

Mas a vida é mais do que esses sacrifícios em nome de um namoro. É impressionante como ficamos presos a algo que no perturba e não fazemos nada para mudar. Me uso de exemplo mais uma vez: há dias, semanas estou com o celular péssimo. A solução, sempre soube, era simples, mas eu resistia em fazer. Um simples botão reiniciava todo o sistema, como se eu tivesse recém tirado o aparelho da caixa. 

Isso falo de mim, mas cada um tem pequenas coisas que incomodam no dia a dia. Coisas que podem ser resolvidas de forma fácil e prática, basta um mínimo de "coragem". Limpar a área de trabalho do computador, desfazer efetivamente a cama para descansar, se permitir acordar um pouco mais tarde (atrasado que seja), fumar um cigarro sentando no sofá... Cada um sabe de si, mas eu garanto que se todos fizessemos mais coisas que nos dão algum prazer, a sociedade teria mais tranquilidade para lidar com seu stress diário.

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

O Apego



- Não entendo as pessoas que ficam se apegando, sabe, que coisa chata! Se todo mundo fosse mais desapegado, seria mais fácil a vida.

- Pera, vamos falar em bom português: despagado é quem vai, dá e tchau.

Baca e Marjane conversam no almoço sobre o último relacionamento dele e dos problemas daqui por diante. A questão toda girou em torno de que ele quer apenas se divertir agora. Depois de quase um ano em um namoro a distância, com uma ou outra traição, Baca quer aproveitar sua liberdade. E quem pode culpar? Mas nem tudo são flores.

Ele quer sair e ter bons momentos, encontrar uma garota, fazer sexo e fim. Não existem promessas de vida juntos ou mesmo de ligar no dia seguinte. Baca é honesto - ou ao menos não é mentiroso, afinal, não promete contato, porém também não diz que dificilmente haverá algo dias pós o sexo.

E não seria mais fácil se todos entendessem isso? Não é um daqueles jogos de casal do tipo "conheci no sábado, gostei, mas só vou entrar em contato na quarta-feira para não parecer desesperado". É um simples, saímos, fodemos e pronto. Mas o outro não entender isso e, inadvertidamente, fazer planos de uma vida juntos acarreta em problemas.

Baca conheceu uma menina na quinta-feira através de um aplicativo. Tomaram uma Coca-Cola na faculdade e combinaram de sair na noite seguinte. Na sexta, passaram ótimos momentos juntos: uma cerveja num pub badalado, um lanche em um fast food gostoso e alguns amassos em uma rua deserta. Audaciosa, a garota o convida para dormir com ela.

- Mas é só dormir - ela ressalta.

Ela divide apartamento com uma amiga que, convenientemente, está passando o final de semana no interior com a família. No pequeno, porém simpático imóvel, os dois conversam mais um pouco e se agarram ainda mais. Obviamente os dois acabaram na cama. Aquela ansiedade de conhecer um novo corpo, novas zonas erógenas, de fazer bom sexo.

Era tarde da noite quando eles terminaram. E dormiram logo em seguida. A cama era apertada, a noite estava quente e ela queria ficar abraçada. Aos primeiros raios do sol, Baca já estava acordado. Bem como seu pênis. Sexo matinal mais rápido do que o noturno e nem tão agradável para ele, que só queria ir embora escovar seus dentes.

A tarde, Baca dedicou aos seus afazeres. Foi perto das quatro da tarde, doze horas após o primeiro gozo, que recebeu mensagem da garota do WhatsApp. Sem tempo ou paciênica, seguiu sua vida. Mais duas mensagens na próxima hora. Quando finalmente teve tempo para dar atenção a garota, textos quase desaforados perguntando porque ele não queria mais falar com ela. Baca respondeu que esatava ocupado e desde e nunca mais se falaram.

Essa histórinha toda para ilustarar o que digo: para quê tanto apego? Se a pessoa não te respondeu, ok. Qual o objetivo de ficar insistindo e quase ofendendo? Imaginemos que se a garota fosse tão desapegada como Baca. Podemos, assim,  facilmente ver um cenário onde os dois estão felizes e tranquilos, pois tiveram uma noite de sexo agradável. Sem falar na possibilidade de poderem sair no próximo final de semana.

Apego é bom. Claro que é. Mas não podemos ou devemos sair por aí, nos apaixonando por qualquer sorriso torto ou gesto carinhoso. Até porque se agarrar a alguém como se fosse a última pessoa da face da terra acaba cortando as possibilidades de sair com esse alguém de novo e, por que não?, de construir assim uma história de amor.

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Sobre Querer Ser Outro Alguém



Às vezes nossas vidas parecem estar passando em preto e branco. Mas não de uma forma como Casablanca ou Sabrina, apenas sem algo que nos alegre ou inspire. Todos os dias parecem o mesmo e sentimos como se tudo fosse banal. Nessas horas de puro tédio e reclamação sempre tem aquele alguém que diz “ei, você tem tal coisa, muita gente adoraria ter isso”. Sinceramente querido, e daí?

Em momentos como esse, algumas vidas podem começar a se tornar mais coloridas aos nossos olhos do que realmente são. Começa aí um processo de observar com mais atenção em gestos, atitudes, falas, opiniões, ações e modo de viver desse alguém. Talvez a pessoa já fosse um ídolo, talvez ela acabe da noite para o dia se tornando o ídolo de alguém que, até o dia anterior, se sentia figurante em um filme ruim de 1940.

Quando percebemos, existe uma duplicata. O admirador lê os mesmos livros, ouve as mesma músicas e come as mesmas coisas que o admirado. O pensar se aproxima e os discursos se igualam. Até mesmo os problemas passam a ser copiados. Acontece que quem apenas vê, não conhece efetivamente os desafios da vida do outro. O que te soa como charme, algo peculiar talvez, muitas vezes poder ser e é uma luta.

O copiador pode pensar que se o outro, que é alguém tão legal e tem uma vida tão (aparentemente) boa e bacana, pode e consegue, ele também conseguira. Se o outro faz isso e não tem problemas, ele também não terá. Então há aí uma liberação moral para uma série de atitudes que, muitas vezes, são altamente prejudiciais. Até porque existe muita fantasia no meio de tudo isso. Não estamos o tempo todo do lado de quem quer que seja, logo não temos como saber como tudo se passa com precisão e como alguns momentos são preenchidos.

Hoje parece que ter o cachorro dormindo contigo na cama é a melhor coisa do mundo. Afinal, parece tão fácil e mesmo engraçadinho quando é na dos outros, certo? Bem, vendo de fora não se tem os pelos que dão espirros, o stress de ser acordado com o animal caminhando por cima de ti, os "ataques" noturno porque tu enquanto dormia o chutou, as brigas pelo espaço para deitar ou mesmo ter que trocar fronha antes de dormir, pois está fedendo a bicho. E isso tudo talvez seja mais problema do que o admirador queira, possa ou saiba como lidar.

Mesmo se o lance de imitar for só uma fase, é algo que deve ser controlado. E cuidar para que isso nunca mais volte a acontecer. A vida é feita de momentos bons, não tão bons e péssimos. Precisamos saber que cada coisa tem seu tempo. Afinal, nossas pontas em filmes ruins de 1940, vão nos levando aos poucos para coisas melhores. Lembremos que se Marilyn Monroe não tivesse feito figuração em algumas produções, jamais teria chegado ao papel de uma fala em A Malvada e muito menos ao cinema colorido, anos depois.