quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

A "véia"


Era uma vez um jovem de vinte e tantos anos recém-formado. Elias curtia a vida como se espera que alguém da sua idade o faça: ia para festas, bebia com os amigos e arrumavas uns casos amorosos aqui e ali, nada muito sério. Ele tinha certeza que tinha controle sobre toda sua existência - ou o máximo de controle que alguém na casa dos 20 pode ter. Até o dia que Tati entrou na sua vida.

Tati era uma mulher bem sucedida e estabilizada. Ela tinha tudo que podia e que queria no auge dos seus trinta e poucos. Só o que faltava para que se sentisse plena era um homem. E achou que tivesse achado o perfeito quando se encontrou com cheio de vitalidade Elias no início da última primavera.

Eles era um casal se não perfeito, perto disto. Os gostos se encaixavam e o sexo era incrível. Não havia ainda o rótulo de namoro, mas a monogamia era um acerto silencioso entre eles. Ainda que nunca tivessem levado um ao outro para conhecer seus amigos, as amizades poderia dizer que já os conheciam de tanto que ouviam falar.

Quando Elias começou a falar hoje sobre Tati foi, no mínimo, surpreendente. Ele começou com "esse é mesmo cheiro da minha véia", em referência ao aromatizador do carro do meu irmão. O aroma de baunilha me fez ter certeza que Tati deve usar o Angel de Thierry Mugler. Independente disto, o comentário foi inusitado. Nos minutos seguintes tudo que foi dito fez com que houvesse a certeza de que o casal perfeito não era nem de perto isto. Elias confessou não saber a idade dela, "mas tem mais de trinta, com certeza". Certamente eles não têm mais de dez anos de diferença, de modo que não entendi bem porque ela se classificaria como "véia". E conforme ele falava, foi possível entender o que gerou a mudança.

Elias e Tati, no auge da bebedeira de carnaval, entre uma rodada do estonteante sexo e outra, entraram em um terreno delicado de conversa: o futuro. Com toda sua vida já bem estabilizada, Tati começou a dizer que pretende se casar e ter filhos. O álcool fez com que saísse de sua boca a palavra que Elias não esperava ouvir: logo.

"Pretendo me casar logo".
"Gostaria de ter filhos logo".

A realidade é que ela já está com trinta e poucos. O relógio biológico está começando a apitar em seus ouvidos. dizendo que em breve seu útero vai secar. Ele, sem palavras, se dedicou a fazer um sexo oral nela. A verdade é que queria correr para longe daquela cama, mas já era tarde e estava sem carro. Enquanto a moça aproveitava seu prazer e queria acreditar que aquilo era quase um pedido de noivado.

Já falei aqui que tenho nada contra relacionamentos com pessoas de idades diferentes. Entretanto, as partes interessadas deveria pensar bem no que estão a fazer. Mulheres, infelizmente, têm um prazo para uma gravidez normal sem riscos. E não é todo gurizão cheio de disposição para sexo que entende isso. Para eles, é uma coroa que sabe como transar. Quase nenhum deles têm maturidade suficiente para formar família. Além desta questão, existem outros fatores a serem levados em conta quando há diferença de idade, como, por exemplo, o "perder" sua juventude ao lado de alguém que começa a ter doenças devido ao passar dos anos, os cabelos brancos nas parte íntimas, os programas mais parados, etc.

Nesta ocasião, me calei. Não deveria, mas foi o que fiz. Minha cabeça só conseguia pensar que Tati perdeu bons meses na sua corrida uterina contra o tempo com Elias. Se o foco dela num relacionamento é casamento e filhos, deveria ter procurado outro alguém ou ter dito tudo isso desde o início. Pior ainda é saber que ela vai ficar mais tempo com ele, porque Elias não vai terminar, ela acha que tudo está indo bem e, quando perceber, vai achar que pode fazê-lo mudar de ideia. Mas, querida, se ele diz "esse é o mesmo cheiro da minha véia", pula fora e acha alguém melhor para ti. Deixa Elias para as meninas de vinte e tantos que não querem saber de nada muito sério e ache um homem que te apresente a todos, que queria construir algo de verdade contigo e não diga que teu perfume é como aromatizador de carro.

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