sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

O Formado


Então chegou o grande dia. Aquele que pode ser chamado o primeiro dia do resto da nossas vidas. Ao menos foi isso que a moça disse em seu discurso. Uma bonita cerimônia, excessivamente longa e entediante, mas que enchia os olhos. Se tem algo que a PUCRS sabe fazer é uma cerimônia de colação de grau. Ou simplesmente formatura, como todos que não trabalham na Proex preferem chamar.

Minha vida começou, portanto, no último dia 24. Um domingo. Às 18 horas. Um dos dias mais quentes do ano. E ao lado de outras 50 pessoas que eu sequer sabia ao certo o primeiro nome. Esse é um problema que ninguém nunca fala: atrasar a faculdade não significa ficar pagando por mais tempo ou semestres quebrados e cheios de créditos, significa que há uma grande chance de você não se formar com seus amigos.

O lado bom é que todos estão disponíveis para ir a sua festa. O ruim é quando conhecem outro formando e escolhem comemorar com ele. Isto pode ser algo que chateia alguém, mas não a mim, uma vez que nem festa ou coisa do gênero tinha interesse...

A primeira segunda-feira foi um bom dia de merecido descanso. Na terça já estava de saco cheio de não ter trabalho ou estudos para me ocupar. Quase duas semanas depois, estou arrancando os cabelos de tanto tédio.

Depois de enviar currículos para todos que me indicaram, para os anúncios que achei por aí e mandar (mais uma vez) um para Globo Condé Nast, fiz uma maratona de RuPaul's Drag Race e de (finalmente) assistir todo ciclo 21 de America's Next Top Model, fiquei sem muito o que fazer e com muito, muito, muito tempo livre em mãos. Já li, já vi filmes velhos e resolvi voltar a escrever um tanto. Para escrever sobre a vida, como sempre fiz, precisava ter uma vida.

Há tempos que eu não via minha amiga Maria Luiza. No caminho para vê-la veio o primeiro choque de tempo. Estava indo para casa dela. Não a casa da mãe dela, onde morava, mas a casa dela mesmo. Um simpático apartamento que divide com um outro rapaz. O tempo definitivamente passou, ainda que a gente não sinta. Chegando lá, também percebi que foi um erro por o para mim novo perfume da Versace e andar sob o sol.

Enquanto a gente conversava na sala, com os narizes cheios com o cheiro de cigarro e do forte Eros (obrigado Donatella!), minha cabeça ficava girando nessas questões. A vida não começou, ela apenas seguiu seu fluxo normal e eu quem fiquei muito tempo preocupado com conseguir por 36 créditos na minha grade de horários para o semestre e manter um estágio em um órgão público.

Pondo as tudo em perspectiva, não há muito o que reclamar da vida. Eu tenho uma casa, um namoro que já dura 4 anos  (!!!!!!!!!!), um pacote de internet móvel bastante decente, um cartão de crédito incrível com taxas baixas e sem anuidade, e uma poupança (!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!) com o suficiente para conseguir me manter longe das sarjetas por certo tempo.

Ainda assim o peso de estar formado sobrecarrega meus ombros e faz com que tudo pareça apenas relativamente bom. Recebo conselhos não solicitados de pessoas que não entendem plenamente o momento em que estou. Mas receber e-mails e ligações com propostas de emprego, nada. De forma meio sádica fiquei contente ao saber que outras pessoas que se formaram comigo também estão com certas dificuldades de se adaptarem ao status de "formado".

É bom ficar sem fazer nada quando se tem algo para fazer. Ficar à toa por não ter compromisso ou responsabilidade alguma no horizonte é simplesmente chato. O ócio me trouxe uma ideia de um milhão de dólares. Infelizmente, eu preciso de US$ 1.000.000,00 para conseguir pô-la em execução. Como não tenho ou terei nas próximas horas esse dinheiro, resolvi por os planos para essa revista em uma caixa de coisas para voltar a pensar depois do Carnaval. Um longo e solitário (graças a Deus) feriado em que pretendo ficar em casa na companhia de Carrie Bradshaw, Charlotte York, Samantha Jones e Miranda Hobbes.

Estou formando. Sou oficialmente um bacharel em comunicação social com habilitação em jornalismo. Apesar de não ter (ainda) o diploma, apenas o certificado, estou formado. Meu horizonte não é mais a Famecos, mas sim, bem, qualquer coisa. O mundo. Ou, no mínimo, a banca de revista onde vou religiosamente todo mês comprar minha GQ e Vogue. Foram 5 anos estudando e acho que agora mereço certo break da vida.

Os currículos já foram enviados para tudo quanto é lugar, não é muito mais o que se fazer neste sentido. Os planos da revista vão aos poucos se consolidando no fundo da minha mente. Como não tenho verba, também não tenho muito o que fazer a respeito. Meu namoro de quatro anos me parece bastante sólido, por tanto também posso me sentir relaxado quanto a isto. O único problema que esse formado vai se permitir esquentar a cabeça até o final do mês é esse Eros Versace que, apesar de bom, foi aplicado em excesso e está me sufocando.

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