segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Sufoco


São quatro anos de namoro. Nunca estive em um relacionamento tão duradouro. E, em geral, não tem muito do que se reclamar. Mas quando há algo, é grande e não se resolve fácil ou sem estresse. De fato eu me sinto quase sempre sufocado.

Antes, muito antes, anos atrás, lá no início de tudo, eu reclamava comigo mesmo e para alguns amigos da falta de engajamento. Os passeios de mãos dadas que nunca aconteciam ou qualquer coisa que remetesse a casal fora do motel. O tempo passou, algumas queixas foram ouvidas e as coisas mudaram - não para melhor.

Não importa para onde eu me vire, lá está. "... curtiu sua postagem", "... comentou sua postagem", "... compartilhou sua postagem", "... te marcou em uma postagem", "... curtiu seu tweet", "... te enviou um snap", etc etc etc. O dia inteiro coisas assim, sem parar. O espaço para individualidade, para minha individualidade, foi completamente ocupado vagarosamente ao longo dos anos sem que eu percebesse ou mesmo permitisse. Nem mesmo este espaço onde eu escrevo sinto a completa liberdade que gostaria de ter.

Recentemente, com a atualização do iOS, os aparelhos da Apple ganharam um app chamado Amigos. Me parecia um brincadeira simples e prática parearmos os iPhones nesta função. Algo simples e tranquilo, para informar quando chegou ao trabalho ou quando se está saindo de casa para nos encontrarmos. Infelizmente, apenas eu pensei assim.

Minha ideia de divertimento logo se tronou quase uma ferramenta de tortura. Me peguei sendo constantemente vigiado. O fato do meu telefone ter um pequeno problema em precisar minha localização acabou por me dar mais um punhado de fios de cabelo branco. Acabei por me tornar um refém, sendo obrigado a constantemente me justificar e dar satisfações de onde estava - ainda que estivesse confortavelmente instalado na minha cama na companhia de Kvothe (antes que venha mais uma leva de questionamentos, é o protagonista da série de livros As Crônicas do Matador de Rei - que recomendo muito).

Acharia algo parcialmente justo se eu tivesse alguma vez feito algo para que houvesse dúvidas a respeito do meu comprometimento com a relação. Acontece que não fui eu quem traiu neste namoro. Três vezes, no mínimo, pessoalmente e incontáveis pela internet, conforme já relatei aqui anteriormente. E ainda assim, eu não usei o Amigos para ficar paranoicamente acompanhando os passos alheios.

Ontem, ao sair com algumas amigas, me vi ficando sem bateria. Precisava fazer de tudo para economizar, pois precisaria de um Uber para voltar para casa. Desativei, portanto, toda a qualquer coisa que gastasse. Entre elas, o Amigos. Nem cinco (!!!!!) minutos depois começo a receber uma enxurrada de mensagens e ligações perguntando onde estava, com quem estava, porque desativei a localização. Logo no início disse o real motivo, mas não foi o suficiente. Assim, tive que correr para casa quando minha bateria indicou 1%.

Mais do que muito irritado, chego em casa e resolvo telefonar para resolver essa palhaçada. E ainda sou obrigado a escutar "a culpa não é minha que tua bateria estava acabando". Porque, obviamente, era minha, claro. Eu quem deveria ter ficado a pé para voltar para casa no meio da madrugada e terminado com toda carga respondendo a tolos questionamentos para alguém cuja ficha é mais suja do que pau de galinheiro.

O que aconteceu com o "quem ama confia"? E com o "a confiança é a base de tudo"? Sinceramente, acho que nunca fiz nada para despertar inseguranças. Eu nunca trai e ainda assim vivo tendo que dar explicações e sendo permanentemente monitorado, sufocado. Não há um vírgula que eu escreva que não seja observada e comentada e, dependendo, jogada constantemente na minha cara.

Oxigênio, é só isso que preciso. Meu espaço. Tenho esse direito... não?

Nenhum comentário:

Postar um comentário